Tuesday, 11 December 2007

Afazeres

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- Bom dia.
- Bom dia. O que posso fazer pelo senhor?
- Bem, eu queria dinheiro.
- Ah, um levantamento. Pode indicar-me o seu número de conta?
- Número de conta?
- Sim, o número da sua conta neste banco.
- Não sei. Não tenho.
- Ah, o senhor quer um crédito!
- Sim. Empreste-me dinheiro.
- Então, e qual seria o montante? É para uma habitação? Um veículo?
- Isso. Um veículo. Quero dinheiro para um veículo.
- Bom, temos linhas de crédito especificamente dedicadas a esse fim. Quanto é que vai querer? Não precisa de ser específico, é só para fazermos uma simulaçãozita.
- 75 cêntimos.
- Muito bem. Se-ten-ta-e-cin-co mil... Desculpe. Disse "Cêntimos"?
- É. A máquina pediu-me 75 cêntimos.
- Máquina?
- Sim. Do Metro.
- Metro?
- Pois. Preciso dum bilhete para o Metro.
- Peço imensas desculpas, mas não emprestamos somas tão baixas.
- Como assim, "baixas"?
- Bem, esta instituição só trabalha com macro-crédito. O senhor quer um micro-crédito. Muito micro, mesmo.
- Mas, então eu tenho de pedir muito dinheiro para apanhar o Metro? Então empreste-me aí uns 100 Euros, que já lhe trago o troco, e amanhã trago-lhe o resto.
- Descuple, meu senhor. Nem 100 Euros. Emprestamos dos mil para cima.
- Eeeena. E como é que as pessoas conseguem pedir essa quantidade de dinheiro e devolvê-la no dia seguinte?
- Oh, as pessoas não devolvem no dia seguinte. Combinamos entregarem-nos o dinheiro aos poucos, às prestações, durante um tempo.
- Ah, por isso é que só emprestam aos maços. Faz sentido. A mim também não me apetecia vir cá todos os dias entregar um poucachinho de 75 cêntimos.
- Mas, se quiser, podemos, à mesma de tratar de um crédito. Não lhe apeteceria ter um automóvel?
- Nunca pensei nisso. Era bom, sim senhor. Quanto é que isso custa? Prái uns 700, 800 Euros, não?
- Hahaha. Claro... Não, é mais uns 15.000. Mas pode ser mais, depende do automóvel.
- Eeeeeeeeeh, cum camandro. Então, e se eu compro o carrito com o dinheiro que me emprestam, e tenho um acidente logo a seguir e morro, hem? Fica a minha mulher a pagar isso, a coitadita?
- Oh, não. Juntamente com o crédito, fazemos um seguro. Assim, se algo lhe acontecer, o seguro paga-nos o montante em falta.
- Tipo: dá à minha mulher para ela vos dar a vocês?
- Algo do género, sim.
- Então dê-me aí 100.000 Euros.
- 100.000?! Bem, o senhor é de decisões rápidas.
- Faz-de-conta.
- Hem?
- Dê-me, faz-de-conta.
- Como assim? Faz-de-conta?
- Dê-me, faz-de-conta. Eu depois finjo que me aconteceu alguma coisa, a minha mulher fica com 100.000 Euros, não os tem de entregar a ninguém. E pronto.
- Não posso fazer isso!!!
- Olhe que sobra algum para si...
- Isso é fraude!
- É um bom negócio.
- Hrrrrmmmm... Oiça, eu não posso fazer isso. Mas o senhor pode ir a uma seguradora e pedir um seguro de vida. Diz-lhe com quanto quer que a sua esposa fique em caso de morte ou invalidez, eles fazem um cálculo, e fixam a mensalidade com base nesse valor.
- Mensalidade?
- Sim, o que o senhor terá de pagar todos os meses.
- Ai tenho de pagar? Então e se eu não morrer?
- Bem, morrer, morre sempre, não é? Se morrer depois da sua esposa, o dinheiro fica para os herdeiros, normalmente.
- Ah, isso é que não dá.
- Como assim, não dá?
- Não tenho herdeiros.
- Não teve filhos? Não tem sobrinhos, nada?
- Filhos? Eu nem sequer sou casado.
- NÃO É...?! Desculpe: não é casado? Mas esteve o tempo todo a falar na sua mulher?!
- Era um suponhamos. Mas fica com metade.
- Desculpe?
- Metade. Fazemos aí o faz-de-conta, amanhã finjo que me aconteceu alguma coisa, dou 100 Euros à minha vizinha que veio comigo visitar isto, ela finge que é minha mulher, e pronto. Depois dou-lhe metade a si.
- Eu nem acredit... oiça, não posso fazer isso. É muito perigoso. Além do mais, o senhor teria de se esconder para o resto da sua vida.
- Donde eu vivo, sou escondidinho. Nem nunca vou votar! Também, nem valia a pena, para lá voltar a pôr o Salazar...
- O Salaz... Mas é mesmo? Escondidinho?
- Quem nem um musaranho.
- Teriamos de fazer isto às escondidas - num café, ou assim.
- Por mim, até pode ser na Casa do Povo aqui da terra. É um bom negócio.
- Eu nem acredito... Bem, olhe, então encontramo-nos amanhã, naquele café ali à esquina.
- Parece-me bem. Têm minis?
- Minis? Devem ter...
- 75 cêntimos.
- Hã?
- Preciso de 75 cêntimos para ir ter com a minha vizinha. É um... crédito.

6 Comments:

At 11/12/07 10:16, Blogger 1entre1000's said...

la está dão com uma mão tiram com a outra... dá lá 1 ério ao senhor... pela convicção!

 
At 11/12/07 13:24, Blogger S. said...

É a chamada febre do crédito. Depois tomaste o medicamento e passaste ao post seguinte.
:)

 
At 11/12/07 16:44, Blogger asterisco said...

1entre1000's:
O problema, é que dão com uma mão, e tiram com duas. São mutantes.

s.:
É o chamado delirium tremens, que a ideia veio-me ontem ao fim do dia, quando ia tirar o bilhete de Metro para voltar para casa. Estava com 39 de febre.

 
At 13/12/07 13:03, Blogger Anous Nimous said...

:D:D:D...
Completamente "Cofodis!"

 
At 18/12/07 12:00, Blogger asterisco said...

Anous Nimous:
Hahaha!!!! Bem visto!

 
At 4/4/09 21:42, Blogger Manual do Inseguro.com said...

Adorei, dei boas risadas e fiquei feliz por encontrar um texto desses quando já estava a sair do computador. Obrigada pela leveza.

oadestradordesentimentos.blogs.sapo.pt

 

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